Tuesday, 07/08/2012
by Fernando Flack
Caetano 70
Sempre que ouvimos falar em “vanguarda” e na conexão desta palavra com a cultura contemporânea brasileira, não há como não ligá-la a Caetano Veloso. Expoente maior do movimento Tropicalista, ao lado de Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé – com Bethânia correndo por fora – Caetano completa 70 anos de idade e deixa evidente que ainda tem uma forte relevância e influência na nossa cultura, e que ainda hoje inspira muitos vanguardistas, jovens ou velhos.
Esta afirmação pode ser controversa, mas não há nada em Caetano Veloso que não seja. Desde que seu amigo de infância Sielington o chamou para ouvir uma música estranha chamada “Desafinado”, achando que só alguém como ele poderia gostar daquilo; passando pelas polêmicas geradas pelo Tropicalismo na década de 1960, o visual chocante em festivais, o uso de guitarras elétricas e acusações de “americanização” da música brasileira; seguindo pelo comportamento andrógino, que sempre gerou uma rejeição homofóbica por todas as gerações que acompanharam a sua trajetória – e que ainda hoje ecoa como eixo de sua rejeição; e chegando às opiniões polêmicas sobre política, comportamento, arte, dentre muitos outros assuntos; o compositor baiano sempre esteve no foco de críticas, para a alegria de fãs, detratores e do próprio.
Mas com 45 anos de uma vasta discografia nas costas, inúmeros hits e clássicos, trabalhos como produtor, diretor de cinema, escritor e artista plástico; Caetano Veloso é peça fundamental para a compreensão da música e da cultura brasileiras. Gil já afirmou que, ao lado de Caymmi e João Gilberto, Caetano é um criador que consolida a mais grandiosa contribuição da música baiana à modernidade. E como a Bahia é o embrião do que se passou a chamar de Brasil, não há como excluí-lo de nossa enciclopédia cultural.
Caetano tem em seu vasto repertório como compositor uma variedade temática respeitável. Uma de suas principais características é estar em diálogo constante com o mundo através de suas canções, seja com intervenções analíticas, homenagens a personagens e episódios da cultura pop à erudita brasileiras ou universais; ou pelo apreço apaixonado pela palavra, pela língua e por suas formas; além do seu vasto conhecimento e opinião sobre inúmeros temas, os quais o próprio afirma não serem profundos, pois acha que não seja profundo em nada.
Sem dúvida alguma, é uma das figuras do universo pop brasileiro que melhor interpreta a cultura nacional com suas canções e opiniões polêmicas, ou não, atraindo afetos e desafetos ao longo de sua trajetória, mas nunca se isentando de opinar. É um dos caras que melhor entende, e nos faz entender, o papel periférico que a cultura brasileira exerce no mundo, mas que não perde a sua vocação para a grandiosidade. --- Fernando Flack é músico e compositor. É apaixonado por artes em geral, mas ama a música acima de tudo. É redator do jornal Redentor do Festival de Cinema do Rio e escreve regularmente para a coluna musical do Todo Rio.
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